América do Sul, Viagens

Como a Bolívia mudou a minha vida

Há 5 anos, embarquei em uma aventura que mudou a minha vida e que deu um chacoalhão na minha realidade. Eu já viajava bastante dentro do Brasil, também já tinha pisado em terras argentinas e paraguaias, mas aquele mochilão de 1 mês foi a minha primeira grande viagem internacional.

Eu sempre tive mil e uma viagens mirabolantes na minha cabeça, mas eu queria começar ali, no meu própio quintal: a América do Sul. Durante este 1 mês eu passei por três países, a Bolívia, o Chile e o Peru. A experiência como um todo foi algo extremamente significativo e life changing. Porém, um destaque tem que ser feito a Bolívia, por diversos motivos que vou explicar ao longo desse texto.

_MG_5177IMG_2467A Bolívia é o país mais pobre da América do Sul e certamente isso nos causaria um grande impacto. Foi o início da nossa jornada, os primeiros perrengues, as primeiras diferenças e choques de realidade. E também, o primeiro contato com elevadas altitudes, ter que se acostumar a respirar em um novo ambiente. Eu só lia relatos apenas de mochileiros que se aventuravam por terras bolivianas além do Salar de Uyuni.  Não era um destino que se via pacotes em agências de turismo, como se via sobre o Chile e Peru. E muita gente tinha (ainda tem) uma ideia bem preconceituosa sobre o país.

Eu ouvia cada coisa enquanto planejava minha viagem; do por que não ir até os Estados Unidos, o que tinha pra fazer na Bolívia (certamente nada), é um país feio, o povo é feio, é tudo muito pobre…Se quiser ter um gostinho da Bolívia é só ir lá na região do Brás (em São Paulo). Ao mesmo tempo que eu ficava chocada com certos comentários, eu não levava isso muito a sério. Vinham de pessoas que nunca estiveram lá e criavam seus próprios pré-conceitos.

Observava como os paulistanos tratavam os bolivianos e isso me deixava bem triste, principalmente depois de ter visitado o país e visto sua realidade. Muitos vão ao Brasil, principalmente em São Paulo, para trabalhar e mandar esse dinheirinho suado de volta pra Bolívia. O Real vale muito mais que a moeda deles, indo do Brasil pra lá você se sente muito rico, agora, imagina o contrário? E me doía ver comentários zoando toda vez que cruzavam com um boliviano mais bem de vida, ou dirigindo um carro.

Ano passado quando estive no Brasil, passei pela região do Brás e foi aquela avalanche de lembranças. Vi propagandas dos ônibus que saiam para ir até Oruro e Cochabamba, nomes que antes podiam ser só nomes, mas que agora carregam um significado. Fiquei tentada pra entrar em um dos bares, ver se eles tinham alguma Paceña e tentar com meu espanhol enferrujado dizer que já estive no país deles e falar dos lugares que passei, das aventuras, dos ônibus que quebravam no meio da estrada e da saudade que ficou.

_MG_5185_MG_5106IMG_2531Eu passei por 7 cidades bolivianas: Santa Cruz, Sucre, Potosí, Uyuni (e o altiplano), Copacabana e La Paz. Não foi uma viagem de luxo, a comida era simples e as nossas acomodações também.  Só em Santa Cruz que nos permitimos ficar em um hotel pelo fato de ser a última parada do mochilão (iriamos pra lá só pra descansar) e ainda sim ser muito barato, o atrativo de ter um ar condicionado meia-boca no quarto valeu a pena, a cidade é uma sauna. Os outros lugares até duvidávamos da higiene das roupas de cama e dormíamos dentro de um saco de dormir. Nos 3 dias que ficamos em alojamentos no meio do deserto o banho com água quente era um sonho distante, era enfrentar um banheiro coletivo, já sujo, com água gelada ou os lencinhos umedecidos.

Repetia várias roupas durante esses dias, a praticidade falou mais alto na hora de fazer a mala. Maquiagem era outra coisa que eu até esquecia de usar muitas vezes. Eu saia na rua e não me importava com meu visual, isso foi de certa forma muito libertador.

IMG_2625Mochilao 435Foi muito gratificante estar vivendo novas experiências e descobertas todos os dias. Aprender mais sobre a cultura e um povo que divide o mesmo continente que a gente. Não ter receio de falar com as pessoas, saber das suas histórias e o que elas já tinham vivido. Isso era de fato o que importava mais, o quanto você aprende sobre o outro e sobre você mesmo. Ver que o mundo é muito maior do que você imagina, mesmo estando ali, vizinho de casa.

Visitar um país mais pobre do que o seu, ver uma realidade de vida diferente da sua é algo que vai te fazer refletir bastante, sobre como você vive e os seus valores. Eu nunca fui de gastar muito com roupas e todo mês comprar algo novo, fico aliviada por ser assim porque isso me faz gastar com o que eu acho que importa mais pra mim: experiências.

Essa passagem pela Bolívia, me fez refletir que eu não preciso de muito pra viver, a dar mais valor ainda as coisas simples e básicas da vida, porque muita gente nem o básico tem. Agradecer por eu ter as oportunidades que eu tenho e sempre aprender, a procurar uma versão melhor de mim, a ter sempre mais empatia pelo próximo.

A Bolívia também me ajudou a refletir e a dar um passo maior no que eu acreditava. Eu já tinha tentado virar vegetariana antes, mas foi ao andar pelos mercados públicos vendo carnes expostas e quando comi carne de lhama que levei um tapão da realidade. Eu não queria mais fazer parte desse sistema, eu não queria ter que olhar pra um animal de novo com aquela culpa que senti toda vez que eu cruzava com alguma lhama. A Bolívia me ajudou a tomar uma das decisões mais importantes e felizes da minha vida. A Bolívia me deixou mais leve.

As experiências vividas por lá, me fizeram ser mais forte e ter menos ”frescuras” pra enfrentar certos perrengues na estrada. Dou até risada de certos luxos que algumas pessoas reclamam durante viagens em continente europeu, acomodações simples daqui é coisa cinco estrelas em certos lugares. Talvez começar com o simples te faz ser menos exigente.

E foi a Bolívia também, que me fez pensar em que tipo de viajante eu quero ser. Não querer passar por lugares só por passar, mas sim conhecer e entender melhor sobre o lugar e as pessoas que ali vivem de uma forma mais significativa. As riquesas da minha vida estão aí, nessas experiências que vou juntando ao longo de cada viagem.

Meu objetivo e o que eu queria pra minha vida só tinha ficado mais claro, a Bolívia era só o começo.

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//22 Comments

  1. Flávia Donohoe

    janeiro 27, 2017 at 6:26 pm

    A Bolivia é realmente libertadora Taís, minha viagem pelo país me deixou várias lembranças, e como você, mudou um pouco meu interior. É um tipo de viagem que te permite se aprofundar no seu eu interior e analisar sua vida e história, também sou muito grata à Bolívia e espero voltar ao país em breve! Lindo relato!

  2. Wanila Goularte

    janeiro 27, 2017 at 6:53 pm

    Que post lindo, Taís! Ainda não fiz nenhuma viagem internacional e planejo a minha primeira pela América do Sul. Com certeza a Bolívia vai subir algumas posições na minha lista depois desse post. <3

  3. Marta Chan

    janeiro 28, 2017 at 1:55 pm

    Ainda viajaste bem na Bolivia, nós fomos a Copacabana, Ilha do Sol, La Paz e Uyuni. Realmente parece que somos ricos na Bolivia, o país mais barato da America do Sul 🙂 Quanto aos bolivianos tivemos não tão boas experiências, muitos deles tratavam-nos como meros turistas e não tivemos oportunidade de entrar dentro da cultura como gostariamos, pois são um povo muito fechado.
    Mas o país é lindo de morrer e vale muito a pena!

  4. KARINE

    janeiro 28, 2017 at 4:35 pm

    que post mais maravilhoso, Ta! me deixou com uma saudade enorme do pouquinho que conheci da Bolívia (e que me deixou apaixonada), além de me deixar com MAIS vontade ainda de conhecer mais do país. nosso guia (o Mário), nos disse que além daquele tour de 4 dias do salar, outro que existe por lá é um tour de 9 dias que passa por quase todo país, e desde conhecer toda a beleza daquele país, fico pensando sobre isso. espero um dia voltar e passar muito mais tempo por lá <3

  5. Gabi

    janeiro 29, 2017 at 1:56 pm

    Lindo, Taís. Eu imagino o impacto. Acho que essas são as melhores viagens, as que enchem os seus olhos mas te fazem olhar ainda mais pra dentro. Me senti muito assim em Cuba, como você disse, olhando pra gente que vive bem com tão pouco, que tem o riso fácil apesar das dificuldades, e que nos mostram que podemos ser mais simples. Essas viagens mudam a gente mesmo 🙂

  6. Josiane Bravo

    janeiro 29, 2017 at 7:15 pm

    Uau, que relato mais lindo de ler 🙂 Imagino como essa viagem deve ter sido enriquecedora para você, afinal, acho que a primeira viagem internacional neste estilo a gente nunca esquece, e é algo marcante mesmo. Adoraria fazer um mochilão pela Bolívia algum dia e vivenciar a cultura do país. Já conheci vários bolivianos e me pareceram ser pessoas bem simpáticas (sei que não são todas).
    Abraços

  7. Deisy Rodrigues

    janeiro 29, 2017 at 9:01 pm

    Taís adorei seu relato e agradeço por dividir suas experiências,ás vezes precisamos ver uma outra realidade para valorizar e compreender melhor o mundo e aquilo que buscamos nas nossas vidas. A Bolívia é um país que está a tempo na minha lista, quando comento minha vontade de visitar o país, sempre escuto comentários parecidos com o que você relatou, mas são tão longe da minha visão que o melhor que encontro é sempre ignorar e buscar ver a realidade com a minha própria experiência.

  8. Klécia

    janeiro 29, 2017 at 10:28 pm

    Adorei tanto seu texto! E ele significou demais ainda mais porque vou pra Bolivia esse ano. Vou passar por Uyuni, Copacabana, La Paz. Vou andar nos ônibus, comer a comida, dormir nos hotéis que você descreveu. Vai ser um tempo menor, vai envolver menos lugares, mas tenho muita fé que vai ser life changing, como foi a sua. Espero que seja. Estou aberta pra ser. Seu texto me inspirou muito! <3

  9. Marcia Picorallo

    janeiro 30, 2017 at 1:32 am

    Gosto muito de posts em que o autor se despe e compartilha suas emoções, Taís. Que bom que você olha pra trás e sente orgulho das escolhas que fez. O caminho é esse, né? Abraços

  10. Claudia Hi

    janeiro 30, 2017 at 12:07 pm

    Tenho muita vontade de fazer um mochilão em qualquer lugar, até mesmo no Brasil. Mas também morro de medo de eu não conseguir sabe, de ter algum perrengue e eu me desesperar, de acontecer algum acidente, sei lá, eu só fico pensando em desgraça rs. Mas um dia farei!

  11. angela sant anna

    janeiro 30, 2017 at 12:40 pm

    adorei o texto! passei por situações e sensações semelhantes no Vietnã e Camboja..uma realidade totalmente diferente da nossa e nos acolhem com tanto amor <3 passei pouco tempo na Bolívia, mas posso dizer que achei maravilhosa e gostaria de conhecer mais do país!

  12. Cíntia de Melo

    janeiro 30, 2017 at 1:14 pm

    que post mais lindo Ta. Eu imagino como deve ser passar por um país de tanta simplicidade como a Bolívia e realmente se sentir diferente.
    Acho que esse tipo de experiência não tem dinheiro que pague né

  13. Camila Faria

    janeiro 30, 2017 at 2:35 pm

    Demais essa sua experiência Taís. Eu me lembro de ter passado por momentos de choque semelhantes aos seus, quando decidi viajar para o Peru há mais de 10 anos (quando o país ainda não era um polo gastronômico e de turismo mais mainstream) e as pessoas me perguntavam: “mas você vai fazer o que lá? não tem NADA pra ver, o povo é feio, pobre…”. Surreal. Como lidar com o preconceito dessa forma tão cruel?

  14. Thayse

    janeiro 30, 2017 at 8:52 pm

    Ah, que amor esse seu relato. Uma viagem assim muda a gente intensamente, né? Faz a gente ver as coisas de outro jeito. Eu ainda quero muito fazer um mochilão pela América do Sul, tenho pensado bastante nisso. Só conheço – e amo – a Argentina! Eu confesso que tenho um pouco de medo da Bolívia por aparentar ser meio violento e coisas assim, mas é preconceito meu, eu sei.

  15. Juliana Rios (Juny)

    janeiro 30, 2017 at 10:48 pm

    Cada pessoa tem uma história de viagem de um lugar que tocou, que transformou, que te fez sentir o que é wanderlust.
    Ao ler sobre a cerveja Paceña, me lembrei do meu TCC! Fizemos um paralelo entre o uso da imagejm da mulher nas propagandas de cerveja do Brasil e da Bolivia. Contamos com a ajuda de um rapaz de Cochabamba que passou nosso questionario na universidade dele e depois nos enviou pelo correio, para compor a pesquisa.
    Adorei ler o seu relato, realmente existe muito preconceito com a Bolivia, se houve falar apenas do Salar, mas nesse post deu para conhecer um poquinho mais através do seu olhar!

  16. Fran

    janeiro 31, 2017 at 12:27 pm

    O comentário sobre o que os paulistanos dizem me cortou o coração, pois bem sei que é verdade. Sempre falam da Bolívia com desdém, fora aqueles que defendem que “eles vieram roubar nossos empregos”. Quando trabalhei em uma escola e por lá havia uma família toda matriculada ouvi isso, indaguei que emprego a pessoa estava preocupada em perder, afinal… –‘

    Li todos os posts da sua viagem e fiquei morrendo de vontade de conhecer a região, porque por pura ignorância mesmo eu não fazia ideia das coisas que existem por lá. E me identifico muito com essa filosofia de ir aos lugares, conhecer pessoas, ouvir histórias, experiência completa!

  17. Lívia Bonilha Bonassi

    fevereiro 1, 2017 at 9:44 am

    Oi, Taís! Não sabia/lembrava que você visitou o Peru. Quero muito conhecer Cusco, Machu Picchu e o Vale Sagrado, vou dar uma fuçada no seu blog 🙂
    Conhecer lugares mais pobres e menos desenvolvidos do que o país em que vivemos muda a nossa perspectiva, não é mesmo?
    Bacana tbm sabe rum pouquinho de como foi o seu passo para o vegetarianismo.
    Entendo quando você diz sobre não apenas passar por um lugar, mas sim entender e viver um pouco mais a cultura.
    Gostei muito desse post <3
    Um beijo!

  18. Ana

    fevereiro 1, 2017 at 11:31 am

    Lindo demais esse relato, Taís! Me faz ter mais certeza da pessoa maravilhosa que você é e te admirar ainda mais. Uma viagem dessa é sem dúvida muito enriquecedora. Eu ainda não tive a sorte de conhecer nenhum país da américa latina, mas com eu gostaria. Na verdade nunca tive a chance de colocar os pés num país mais ou tão pobre quanto o Brasil. Tenho certeza que encararia como você, como uma mudança no modo de ver o mundo. Que bom que você viveu essa experiência querida! Acredito que nada paga as memórias que você coletou!

  19. Katarina Holanda

    fevereiro 1, 2017 at 1:10 pm

    Que delícia de texto e que delícia de viagem, Taís. <3 Experiências assim não há nada que pague. Ainda quero demais conhecer esses lugares da Bolívia que você foi. Engraçado que mesmo os destinos mais populares de Chile, Peru, Bolívia.. geram a bendita pergunta: "credo, o que você vai fazer lá?" Muita gente se surpreendeu quando eu voltei do Atacama porque achou que lá não tinha o que ver, mesmo sendo um dos lugares mais famosos e ter sido uma viagem recente. Imagina o que você deve ter ouvido! 🙁 Amei o post. Beeijo!

  20. Clayci

    fevereiro 1, 2017 at 1:30 pm

    Como eu amei ler esse texto/desabafo.
    Tenho muitos amigos bolivianos e mesmo eu nunca indo para o país, sei o quanto eles sofrem preconceitos por aqui.
    E me sinto mal, como vc, pois são pessoas maravilhosas e que colocam a família em primeiro lugar de tudo. Trabalham, estão sempre a disposição e se vc for amigo de um boliviano será sempre recebido com o um sorrisão lindo.
    <3

  21. Samira

    fevereiro 1, 2017 at 6:11 pm

    Caraca! Que post incrível, pela primeira vez na vida fiquei com vontade de conhecer a Bolívia !
    Adorei seu blog, super aconchegante <3

  22. ana jähne

    fevereiro 7, 2017 at 6:37 am

    que experiência fantástica, Taís. cruzar a América do Sul desse jeitinho, de cidadezinha pra cidadezinha, é um dos meus sonhos de viagem.

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