DMZ – a fronteira entre as duas Coreias

Quando estávamos planejando a viagem para a Coreia do Sul pensamos muito se iríamos ou não até a DMZ.

DMZ é a Zona Desmilitarizada da Coreia, uma fronteira que meio que divide a península coreana na metade, separando as duas nações: Coreia do Norte e Coreia do Sul. Ficamos bem pensativos sobre essa questão, se fazia sentido ir mesmo.

Pra gente é meio surreal transformar um lugar desse em uma ”disney” com camisetas, souvenirs etc (sim, tem de tudo). E ir com a mentalidade de estar indo ver um ponto turístico ”qualquer”. Decidimos ir com a cabeça focada no lado histórico da coisa, como por exemplo se tivessemos indo ver o Muro de Berlin, que é o que faz mais sentido no nosso ponto de vista, a reflexão que isso nos trará.

A fronteira entre as duas Coreias é considerada uma das mais perigosas do mundo. Fortemente militarizada e cheia de minas terrestres. E apesar de ser liberado para turismo, é por sua conta em risco ir até lá. Afinal, as tensões entre os dois países vão e voltam. Os tours podem ser cancelados em cima da hora ou você ter que dar meia volta por questões de segurança.

Não vou abordar nesse post a história de separação e todo conflito dessa fronteira entre essas duas nações. É um assunto muito complexo que vocês podem achar outras fontes melhores para se informar. O que vou focar aqui é como foi nossa experiência indo visitar a DMZ.

Já que tínhamos decido ir, o principal local que eu queria ver era a JSA (Joint Security Area). Essa é a única parte da fronteira que as forças norte e sul coreanas ficam frente a frente. E era lá também que aconteciam todos os encontros diplomáticos e negociações militares entre os dois países e as Nações Unidas. Só é permitido ir pra lá com um tour autorizado e você pode entrar nas ”casinhas” onde esses encontros eram realizados. Uma parte da sala é territorio sul coreano e a outra é do norte. Ao atravessar a sala você ”entra em territorio norte coreano” e tem uma portinha que fica um guarda e se você atravessar pro outro lado, as forças sul coreanas não se responsabilizam por você mais. Agora, quem é louco de cruzar? haha

Mas, no final de 2018 foi feito um acordo entre as duas Coreias e ordenaram que tirassem todas as minas terrestres da JSA. E também, as armas e postos de garda. Era uma parte fortemente armada e agora deixaram 35 seguranças desamardos no local. Foi feito um acordo que a JSA não funcionaria mais no seu estado atual e não vai ser mais o local de encontros diplomáticos, transferindo também os guardas. Agora a JSA vai ser um local apenas para turismo, um local histórico.

Pegamos bem essa fase de transições e mudanças (pra melhor!!) na fronteira. E nesse fim de 2018 a ONU não estava liberando tour nenhum pra JSA por questões de segurança. Ainda tava tudo muito ”fresco”. Não sei informar se já está liberado para turismo ou se ainda continua restrito.

Sendo assim tivémos que optar por ver outras áreas da fronteira. E para ir até as outras áreas da DMZ sem ser a JSA, é possível fazer por ”contra própria”. Tem um trem turístico que sai de Seoul para a Dorasan Station e ali você pode pegar um ônibus que vai parar em alguns pontos da fronteira. Analisamos se valeria a pena fazer assim ou pegar de fato um tour. Para nossa situação no momento e pelo nosso roteiro, fez mais sentido pegar um tour. Mas se pra você meio que tanto faz e quiser economizar, pegar o trem sai mais em conta. Eu não sei se esse ônibus vai te dar mais informações sobre todas as paradas. O que achamos interessante do tour foi que teríamos um pouco mais de contexto e aconteceu de que levaram no tour uma desertora norte coreana pra conversar com a gente.

A desertora norte coreana obviamente não falava inglês, mas a nossa guia sul coreana foi traduzindo o que ela falava. Ela contou um pouco da sua história e de como ela escapou da Coreia do Norte. Foi bem impactante ter contato assim direto com alguém que passou por isso e também tivemos a chance de fazer perguntas pra ela. Foi bem triste saber da realidade que ela viveu e que ela deixou toda a família dela para trás. E o perigo que todos correm tentando se comunicar. Surreal!

A Ponte da Liberdade – do outro lado é a Coreia do Norte

Nossa primeira parada foi no Imjingak Park pra ver a Ponte da Liberdade. Ficamos bem pouco ali nessa área. Na verdade, o tour todo é assim, não ficamos muito tempo nos locais. Nesse parque podemos ver essa ponte, lá também tem um deck de observação e lugares pra comer. Essa ponte em questão foi construída para troca de prisioneiros no fim da Guerra da Coreia.

Lembro quando chegamos lá, a guia pediu pra gente não tirar fotos do outro lado de umas cercas – e nem pra tirar fotos da janela do ônibus. É importante prestar muita atenção em todas as regras e no que os guias te falam. Não tire foto de lugares se eles pedirem para você não tirar ou também não entre em outros lugares. Siga estritamente seu grupo, não fique ”vagando”, para sua segurança e dos outros também. Imagina o tanto de minas terrestres que não devem ter escondidas por toda essa fronteira.

Caminho pra observar a ponte

Eu quase não tirei fotos, foi tudo meio que rápido e eu queria focar nas informações passadas e os lugares.

Nossa segunda parada foi no Third Infiltration Tunnel. Os norte coreanos fizeram alguns túneis na fronteira para atravessar e atacar o lado sul. Acredita-se que esses túneis foram feitos ainda na época que as duas nações tinham feito um acordo de paz no fim da Guerra da Coreia. Foram encontrados 4 túneis, mas é possível que tenha muito mais.

Esse terceiro é o que chega mais perto de Seoul (44km de distâcia pra capital) e com uma capacidade de mover 30 mil soldados e artilharia por hora!!! Nós pudemos entrar nesse túnel e caminhar até a terceira barricada e de lá conseguimos ver a segunda por uma janelinha. Na ida é descida, mas na volta tem uma subidinha boa. Aqui temos que deixar nossos pertences em um locker, tudo mesmo, inclusive celular! É proibido tirar fotos por lá. Aqui fomos tirando nossas mil camadas de roupa, tava um frio de lascar lá fora, mas entrar nesse túnel e toda a subida da volta deu um calorão!

Próxima parada: Dora Observatory.

Nesse observatório podemos ver com binóculos o lado da Coreia do Norte com mais detalhes. Daqui podemos ver a vila de Kijong-dong, mais conhecida por ser a ”vila propaganda” dos norte coreanos. Eles usavam essa vila como uma forma de mostrar como o lado norte era bom e para atrair sul coreanos pro outro lado. Mas descobriram que era tudo fake, nem vidro nas janela dos prédios tinham e as poucas pessoas que eram vistas, eram provavelmente militares ou ”cuidadores”, não de fato pessoas que moravam lá.

Já rolou a maior ”batalha de propagandas” dos ambos os lados, com alto falantes e até uma ”guerra” dos mastros. Os sul coreanos colocaram uma bandeira de 98 metros ali na fronteira e os norte coreanos responderam com uma maior ainda, de 160 metros de altura.

E com os binóculos do observatório a gente pode ver com nossos próprios olhos a tal da bandeira, a vila propaganda e toda uma boa área norte coreana. Doido demais olhar e ver Kijong-dong e a Coreia do Norte ali diante dos meus olhos.


Kijong-dong lá no fundo
Conseguem ver o mastro da bandeira nessa foto?
Território norte coreano
Na parte de dentro do Dora Observatory

Para finalizar, a última parada foi na Dorasan Station. Essa estação opera apenas alguns trens turísticos vindo de Seoul, mas na real ela está ali com um propósito mais simbólico, na esperança da reunificação entre as duas Coreias.

A Dorasan está prontinha pra ligar a Coreia do Sul com a Coreia do Norte, mas isso nunca aconteceu. E mais que isso, se os trilhos dessa estação pudessem funcionar no lado norte da fronteira, seria possível fazer uma viagem da Coreia do Sul até a Europa, conectando os trens pela Russia e China.

Nunquinha na minha vida achei que um dia iria ver a Coreia do Norte com meus próprios olhos da maneira que vi. Foi surreal demais estar ali e dar de cara com aquilo tudo e ouvir essas histórias tão diretamente.

É possível visitar a Coreia do Norte com tours próprios deles, mas nem cogitamos isso, por justamente não querer ”colaborar” com esse regime de alguma forma. Eu tenho curiosidade e vontade de conhecer o mundo inteiro, mas tá aí um lugar que eu não quero ir visto as suas condições atuais.

Foi mais impactante ainda toda essa experiência pra nós por ter conhecido uma desertora norte coreana e também, ter conhecido nosso host sul coreano que fez serviço militar na DMZ. Ouvir as histórias de ambos foi bem chocante. Como mencionei rapidamente em um outro post, nosso host nos contou um pouco como foi pra ele ser um soldado na fronteira. Eles têm ordens de atirar se vir alguém se aproximando, não importa quem seja. Ele estava de guarda em uma ocasião, viu duas pessoas vindo, mas ele não teve coragem de atirar. Ele foi falar com o superior e nisso as pessoas se renderam, elas estavam vindo fugidas e não demonstravam nenhum risco. Apesar disso, ele e a equipe inteira sofreu punições. É perigoso pra todo mundo, já que quem ta vindo do outro lado pode estar carregando bombas. No fim, ele salvou essas duas pessoas e hoje elas vivem na Coreia do Sul. Eu fiquei muito emocionada quando ele nos contou essa história. De como foi toda aquela adrenalina na cabeça dele de ter que tomar a decisão de atirar ou não. Me arrepio toda só de lembrar.

Sobre o tour em geral, foi bem o que a gente esperava mesmo. Foi muito corrido, mas também não é um lugar, vamos dizer assim.. ”a passeio” e que eu gostaria de ficar horas e horas vagando.
Temos que estar com nosso passaporte a todo momento, porque eles pedem pra ver e por segurança nossa. Se não me engano, algumas nacionalidades não podem visitar a DMZ.
E também, eles pedem pra você ir ”bem vestido”. No sentido de não ir com calça jeans rasgadas ou qualquer roupa que o lado norte coreano possa tirar foto dos turistas e usar de propaganda pra mostrar o quão ruim é o outro lado, que as pessoas andam com roupas rasgadas.

E vocês, iriam até a DMZ também?

Comments

  1. WOW! WOW! WOW!

    Cara, que doido isso! Eu, com certeza, iria visitar a DMZ mas assim como voce, iria com essa mentalidade de respeito e nao de curticao/ponto turistico/selfies. Assim como fiz quando visitei o Muro de Berlin, o Peace Wall de Belfast e campos de concentracao na Alemanha. Ter ouvido a estoria da refugiada norte coreana na C. Sul deve ter sido forte mesmo. Que mundo a gente vive, ne? Otimo texto!

  2. Nossa deve ter sido uma experiência surreal! Mas na real, acho que eu não teria coragem de ir…

    Fiquei chocada com a história do seu host. Não dá pra acreditar que essas pessoas poderiam ser nossos pais ou irmãos ou nós mesmos.

  3. Nossa Taís, não sei se eu teria coragem de ir não!
    Mas se fosse com certeza seria com o guia!
    Triste saber que existe essa divisão nos dias de hoje =(

    Beijos!

  4. Eu acho que conhecer esses lugares nos da muita perspectiva sobre o mundo, sobre as mazelas que afligem outros lugares, sobre as dores do ser humano por toda a parte. Eu acho super válido visitar esses lugares como fonte de aprendizado. Nos faz melhores como ser humanos, ou deveria fazer. Não é questão de turismo, e você tem toda razão quando diz que devemos respeitar… o turismo nesses lugares é necessário porque as vezes é difícil acreditar no que o ser humano é capaz. A gente escuta estórias, a gente vê notícias, mas nada impacta tanto quanto sentir o peso da história nas costas, nos olhos. Eu gostei muito do seu relato, porque ele dá a profundidade que esse lugar tem. Obrigada por dividir!

  5. Nossa Taís, que post! Fiquei MUITO arrepiada que vocês conheceram uma desertora da Corea do Norte e puderam conversar com ela… que história mais triste esta que acontece assim, enquanto a gente está aqui batendo um papo né?
    Amei demais ler seu relato, fiquei comovida mesmo e com certeza é bem bizarro que o local tenha virado esta ‘disney’ que falou, com souvenirs e tal…
    A história do seu host também me arrepiou muito quando li, sai contando pras pessoas..haha
    Nossa, espero que um dia isso tudo mude pra esse povo que tanto sofre
    :´(
    Beijos, Flora.

  6. Incrível seu relato, Taís! Acho muito interessante ver fronteiras por terra, como quase sempre viajamos de aviao, acabamos perdendo essa experiência… com certeza a das duas Coreias é uma das mais problemáticas da atualidade, e acho importante que as pessoas tenham acesso a essa visita guiada, como vocês fizeram! Espero que nossa geraçao ainda possa ver essa fronteira aberta pacificamente. Obrigada por compartilhar!

    Beijos

  7. Acabei de voltar da Corei do Sul e visitei a DMZ. Não sei te dizer se eu gostei ou não, porém realmente achei tudo muito “Disneylândia”. E eu quase morri no túnel hahaha. Mas ok. Acho que valeu a experiência…pude conhecer um pouco mais sobre as Coreias.

    Abraços 🙂

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.


Notice: genesis_footer_creds_text is deprecated since version 3.1.0! Use genesis_pre_get_option_footer_text instead. This filter is no longer supported. You can now modify your footer text using the Theme Settings. in /home/jw1nrhfa/public_html/wp-includes/functions.php on line 4711

© 2019 Nýr Dagur · by MinimaDesign