Pessoal

Escrever sobre viagens

Viajar é uma coisa que já veio injetada no meu sangue quando nasci, parece que faz parte do DNA que herdei dos meus pais. Quando tinha apenas 3 meses de vida embarquei pela primeira vez em um avião rumo ao nordeste brasileiro, mas antes disso, posso dizer que eu ‘fui feita’ em uma dessas viagens que meus pais fizeram. Minha família sempre viajou muito e é claro que crescendo nesse meio eu peguei o gosto pela coisa toda, seja nas viagens de férias ou as de trabalho, já que viajar também era a ‘profissão’ da família.

E quando foi que eu comecei a escrever sobre viagens? Eu lembro como se fosse hoje, tinha por volta dos 12-13 anos e estava acompanhando meu pai em mais uma dessas viagens de trabalho, lá em Florianópolis. Todos os adultos estavam indo para uma festa à noite e eu, sendo menor de idade, não pude acompanhar. Fiquei no hotel sozinha e não tinha muito o que fazer depois de já ter dado umas voltas por perto, da varanda do meu quarto eu via aquele horizonte escuro e escutava o som das ondas quebrando lá na praia. Nosso hotel ficava bem de frente pro mar, com uma saída exclusiva pra praia, foi a primeira vez que nos hospedávamos alí, mas a região já era bem familiar, quase todos os anos íamos pra lá e ficávamos em Canasvieiras, tenho várias lembranças da minha infância correndo com meus primos alí pela praia ou na rua principal lotada de turistas argentinos e uruguaios. Aquela noite foi só o começo pra mim, sozinha, com a cabeça cheia de pensamentos e sem conseguir dormir,  peguei uma folha de caderno e comecei a escrever sobre aquela viagem.
Eu só tinha 12 anos, mas lembro que já tinha viajado muito mais que todos os meus amigos de classe na escola. Sempre que reclamava da vida, meu pai fazia questão de ressaltar isso, que eu deveria agradecer por ter essas oportunidades e que nem todo mundo viajava quase todo o mês como nós fazíamos. Todos os meus amigos falavam que eu era riquinha, já que pra muitos, viajar é sinônimo de luxo, mas não viajávamos porque éramos ricos, viajávamos porque sabíamos que dava pra viajar com pouco. E quando eu parava pra pensar no ‘você viaja porque é rica’, eu comecei a analisar isso de uma outra perspectiva: sim, eu sou rica, sou rica de histórias e momentos que já passei por conta dos lugares que já pisei, das pessoas que já conheci, das paisagens que já contemplei e toda experiência que todas as viagens, sejam elas até o litoral paulista ou até o outro estado tinham me proporcionado.
Ao longo dos anos eu percebi que minha paixão não era só viajar, era também escrever sobre esses lugares que eu já passei, levar um pouco do que eu vivi para outras pessoas. Comecei em uma folha de caderno, sem muitas pretenções e tempos depois, quando criei o blog, estava aqui compartilhando minha experiências nesse espaço. Acabei virando uma storyteller, uma travel writer, e não há satisfação maior quando uma pessoa consegue viajar junto com você através da sua escrita ou que também queira estar no mesmo lugar que você esteve.
Tá bom, Taís, você é mais uma em meio a mais um milhão de outras pessoas que fazem o mesmo. A indústria do turismo é uma das que mais crescem e mais pessoas viajam a cada ano, é algo gigantesco. Os blogs/sites de viagem hoje em dia são muitos, tem gente de tudo quanto é canto escrevendo sobre viagens, dando dicas e contando suas experiências. O meu blog não é somente um blog de viagens, apesar de ser o assunto mais falado por aqui, mas como se destacar ou fazer algo de diferente já que tantas outras pessoas fazem o mesmo?
Desde que eu comecei a escrever sobre viagens, os meus textos sempre parecem como se fosse uma conversa com algum amigo, uma mistura de diário de viagem com  minhas experiências, dicas e informações sobre o lugar. Eu adotei esse estilo de escrita, que muitas vezes eu acho confuso, já que eu acabo misturando um monte de coisa, mas é o que eu gosto de produzir, sem muitos padrões mesmo, nada muito travel writer profissional. Cada vez que eu acesso blogs falando sobre viagens, mais eu fico com esse meu jeitinho de escrever, mas e por que? Eu não sei explicar direito, mas acabo achando tudo a mesma coisa.
As pessoas são diferentes, vão para lugares diferentes e acabam escrevendo tudo igual, é sempre o mesmo clichê que me fazem gostar menos desses blogs mais ‘profissionais’ sobre viagem. Ou então escrevem de uma forma tão forçada e essa falta de naturalidade me faz fechar a página rapidinho. Eu sei que tem todo um ‘padrão’ de travel writing, principalmente se você tá ganhando pra fazer isso, mas experiências de viagens são tão pessoais e tão diferentes, mesmo sendo de um mesmo lugar, fico entediada de ler blogs falando de viagens sempre com aquele mesmo estilo de escrita que não te ‘acrescenta’ em nada. Mas como assim não acrescenta em nada?
Vou me limitar a falar só sobre travel writing em blogs, não gosto muito de ler textos sobre viagens com aquele monte de datas históricas, principalmente se a pessoa já começa o texto assim. Claro que elas são importantes, mas se você sabe jogá-las no meio do texto de uma forma que não fique entendiante, eu gosto de ler relatos de viagens que eu sei que são únicos, que eu não vou achar em nenhum guia de viagem ou na wikipedia. Capisci? Pra mim, aquele texto de viagem que me prende é aquele que a pessoa dá sua visão do lugar do seu ponto de vista, da experiência que ela teve ali e não aquele Ctrl C + Ctrl V de outras pessoas que já escreveram sobre o mesmo lugar ou guia de viagens, adoro ler sobre as pessoas que elas encontram no meio do caminho e como elas se sentiram, o clima do lugar, aquela leitura que te faz realmente viajar junto e isso pra mim, me acrescenta alguma coisa, quando o leitor se sente próximo daquele relato.

Pode parecer meio maluquice da minha parte, não sei se as outras pessoas compartilham do mesmo sentimento, mas quando eu leio relatos de viagens em blog é isso que eu procuro, quero viajar junto com a pessoa. Acho que o fato de gostar desse tipo de relato, faz com que eu queira que meus relatos de viagem sejam assim, eu gosto de contar das minhas experiências pessoais e ao mesmo tempo fazer com que elas sejam útil de alguma forma pra quem lê, seja com dicas, curiosidades ou informação do lugar. Gosto de transformá-los em uma coisa única, já que existem tantas outras pessoas escrevendo sobre viagem. Aquela viagem foi sua e de mais ninguém, é importante você colocar sua essência no relato, é uma forma também do leitor reconhecer tua ‘marca’.

 

A cada relato, sempre tento melhorar mais, sei que ainda tenho uma longa estrada pela frente, mas me enche de felicidade quando alguém comenta sobre a forma dos meus relatos, ou que viajou junto comigo. Muitas vezes acho meus textos confusos, já que como disse anteriormente, eu gosto de misturar um pouco de tudo, mas estou me esforçando para melhorar isso. Cada tipo de viagem, dependendo da sequência ou não, eles vão ter uma estrutura diferente, um jeito de começar ou terminar, mas acho que independente dos padrões ou o que todo mundo faz, eu gosto de escrever do meu jeito, é isso que faz os meus relatos serem meus e se fosse de outro jeito, não seria eu. Eu nunca pensei em levar isso mais a sério, sempre vi como um hobbie aqui pro blog, mas pesquisando mais sobre essa tal coisa de travel writing (literatura de viagem) fiquei morrendo de vontade de levar a coisa mais além. Quando leio meus próprios textos acho tantos erros que ainda não sei se estou preparada pra tornar isso uma ‘brincadeira de gente grande’, sabe? Enquanto isso, fico muito feliz em escrever aqui no blog um pouco do que ja vivi por aí, são as riquezas da minha vida e que guardo como se fossem um tesouro. Não sou rica de dinheiro, não tenho Iphone, não compro as melhores roupas de marca ou tenho lá muitos bens materiais, mas minhas experiências de viagem são o que eu tenho de mais valioso.
Já indiquei aqui dois livros sobre literatura de viagem pra quem estiver interessado:
A Fantástica volta ao mundo e Vida Nômade
E pra você, qual é o melhor tipo de escrita sobre viagens? Tem algum livro sobre travel writing pra indicar?

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//17 Comments

  1. Kah Souza

    fevereiro 18, 2015 at 7:38 pm

    O que eu tenho a dizer, é que quando eu crescer eu quero ser uma viajante igual a você (e uma uma travel writer tb, HAHA). Ok?!

    A maioria dos blogs que eu acompanho, ainda mais sobre viajantes, são de pessoas que contam suas histórias/experiências (de viagens ou qualquer outro assunto), que colocam sentimento naquilo, que passam um pouco da personalidade delas pelas palavras, sabe? Esses são o que eu acompanho e tenho gosto de ler sempre. Mas tb tem esses blogs que a gente dá uma googlada só pra ter uma info especifica de uma coisa x, pega essa info e acaba não voltando mais, hahahahaha. Acho que basicamente é essa a diferença. Sempre que leio relatos como o que você conta aqui, eu fico naquela de: cadê o próximo post? CONTA MAIS CONTA MAIS.

    E olha só a coincidência, na segunda eu te linkei lá no blog. Fiz um post sobre lugares ~diferentes~ que quero ir, e coloquei seu relato contando sobre a viagem pro Salar, hahaha.

  2. Nina Tangerina

    fevereiro 18, 2015 at 9:21 pm

    "Travels are not measured in miles but in friends." Acho que isso diz um pouquinho até sobre viajar e se conectar com os lugares e com as pessoas dali, né? E escrever sobre viagem é uma coisa teoricamente difícil mas que, dude.. Você escreve e parece sempre tão espontâneo! Profissionalizar um blog é uma coisa que simplesmente acontece, mas tu pode se sentir uma storyteller profissional, mesmo. E que essas viagens se multipliquem, assim como teus relatos aqui.
    Much love, gal!

  3. Debbie Abelha

    fevereiro 18, 2015 at 9:52 pm

    Acho que blog é uma maneira bem pessoal de falar sobre as suas experiências né? Concordo que não há nada mais chato do ler um texto sobre uma viagem cheio de informações históricas, datas e etc… Com certeza alguns fatos históricos é bem interessante saber, mas melhor ainda é pode viajar junto com aquela pessoa para outro país, outra cultura e outras circunstâncias.

    Beijos

  4. Paula A.

    fevereiro 18, 2015 at 11:40 pm

    Meus blogs favoritos são os pessoais-diarinhos, então isso já diz muito sobre minha paciência em ler algo mais profissional! hahah. Também gosto de degustar as experiências pessoais que cada um passa nos lugares, ao invés de ficar vendo sempre mais dicas do mesmo. E se é isso que você quer, vai atrás sim, jeito você tem! 🙂 Minha única dica é: quebrar os parágrafos pra ficarem menores – e, apesar de deixarem o texto ainda mais longo com as quebras, ele na verdade parece menor (pra mim, pelo menos, não sei se é científico! hahahaha). Talvez só em fazer isso você até já se sinta menos confusa quando reler, dá uma cadência mais gostosa aos textos. 🙂

  5. Lid

    fevereiro 19, 2015 at 12:10 am

    Que texto mais inspirador! Sério, você tem mesmo seu próprio jeito de contar suas viagens. É bem envolvente e demonstra realmente o que você sentiu. Continue assim! E eu super apoio sua ideia de levar esse negócio adiante!

    http://www.prefirobsides.com.br/

  6. naterradaluavirada

    fevereiro 19, 2015 at 1:50 am

    Taís, preciso deixar registrado aqui que os seus relatos de viagem são dos poucos que eu realmente leio. Eu adoro viajar, mas detesto ler blogs de viagem exatamente por esse motivo que você citou: todos parecem iguais. Eu gosto é de ler quem escreve assim como você ou como a Bárbara porque vocês têm blogs pessoais, onde falam sobre vocês e contam também sobre as viagens que fazem. Assim tudo faz sentido, sabe? Quando eu "conheço" a pessoa que está escrevendo, é muito mais fácil me sentir essa amiga com quem você está conversando sobre sua viagem. Continue assim! 😉

    Beijos,
    Lidia.

  7. Michelli B.E.

    fevereiro 19, 2015 at 9:33 am

    Na última viagem que fiz comprei um caderno pra escrever sobre o que via. Muito gostoso mesmo ler tudo depois =D

  8. Brenda Paula

    fevereiro 19, 2015 at 8:48 pm

    Acho que então temos muita coisa em comum. Eu tbm amo viajar tanto a lazer quanto a trabalho. Gostaria de poder viajar mais do que eu posso.

    Bjuss

  9. Bia

    fevereiro 19, 2015 at 10:17 pm

    Com certeza seu blog ajuda!! Vou pra Irlanda em setembro e sempre acompanho 🙂

  10. Elisa Mello

    fevereiro 20, 2015 at 3:03 pm

    Que historia bacana Taís, sua infância foi mesmo muito rica de aventuras e por conta disso você é a pessoa que vemos hoje, aventureira e sempre aproveitando ao máximo suas viagens deixando seus registros aqui para a gente 🙂 e eu adoro ler esse seu cantinho! haha

  11. Bárbara Hernandes

    fevereiro 20, 2015 at 5:37 pm

    Que texto lindo, Taís! Adorei toda a proposta e me fez refletir sobre a maneira como eu escrevo sobre minhas viagens. Eu adoro ter registro das coisas (sempre gostei, foto e texto) e pra mim é um tesouro ter os relatos das minhas viagens registrados, sabe?

    Eu adoro acompanhar os seus textos porque eles são pessoais, adoro esse toque especial. Quando vou viajar, acabo lendo tanto blogs "profissionais" como blogs pessoais porque gosto de pegar as dicas gerais mas também as particularidades de cada um, mas confesso que prefiro acompanhar blogs como o seu, que falam de vida e viagens – e tento fazer o mesmo no meu blog! (assim como a Lidia comentou)
    Vai fundo na carreira de escritora de viagens!

  12. Camila Faria

    fevereiro 20, 2015 at 7:41 pm

    Super entendo o que você quer dizer Taís. Eu percebo que a maioria das pessoas que tem blogs sobre viagem ou fazem posts de viagens, focam em "dicas" ou lugares imperdíveis e derivados, deixando a experiência de lado. Acho até que isso é um reflexo dos blogs como um todo, muito preocupados em mostrar momentos felizes e perfeitos, mas sempre um pouco rasos, por falta de profundidade mesmo nas próprias histórias vividas.

    O seu blog é exceção, claro. A gente viaja junto, se emociona junto. Uma delícia. <3

  13. Ana Luiza

    fevereiro 21, 2015 at 12:38 pm

    Oi, Taís!
    Quando visito um blog que fala de viagens, eu gosto exatamente do que você disse: de ver a pessoa contando sua experiência, sua vivência no local. Felizmente, ainda não me deparei com tantos blogs que ficam parecendo cópia de Wikipedia. O único livro que eu conheço em que o autor relata uma viagem é o "A Estrada da Cura", escrito pelo baterista da banda Rush. Ele perde a filha e um ano depois sua esposa e decide partir para tentar amenizar a dor. Os relatos são incríveis, cheios de sentimento e com lições de vida inspiradoras.

    Eu gosto do seu blog justamente por ele não ficar copiando e jogando as informações para nós, leitores. Eu claramente percebo o amor que você sente por viajar. Isso é muito nítido nos seus textos e, como a Camila Faria disse em seu comentário, "A gente viaja junto, se emociona junto".

    Obrigada pelo comentário no blog ♥
    Beijos,
    Nalu
    http://coisasafiins.blogspot.com

  14. Giulianna

    fevereiro 22, 2015 at 11:15 am

    Eu também amo quando leio um relato assim, por isso sempre fico super presa aqui no seu blog <3
    também gosto muito de escrever sobre viagens, o que apenas incentiva voce a viajar mais ^^

  15. Ana Jähne

    fevereiro 26, 2015 at 11:51 am

    eu confesso näo ler muitos blogs/livros de viagem. a näo ser que esteja me preparando pra arrumar as malas… aí sim! e busco exatamente pelo que você descreveu: impressöes pessoais, dicas que näo estäo num guia de viagem, lugares secretos. embora muitas vezes sem escapatória, evito "turistar"… e relatos assim deixam a experiência muito mais autentica.

    p.s.: näo é livro, mas tenho acompanhado uma volta ao mundo nesse blog aqui: http://apanhadanacurva.blogspot.de a carla tem descriçöes incríveis dos lugares onde ela passa 😉

  16. Tany.

    fevereiro 28, 2015 at 7:34 pm

    Acho que o único blog de viagem que leio é o seu exatamente por isso. Ele é pessoal, eu sinto que estamos conversando, as fotos são bonitas (grande plus!) e você fala como se tivesse me escrevendo um e-mail pessoal, sei lá.. Eu morro de sono lembro 90% dos blogs de viagem e por um bom tempo parei de ler vários porque cansa e parece que tira tudo que deixa o lugar especial. Não muda seu jeito de escrever nem que queira porque eu acho que isso que te deixa tão única e querida por quem te lê 🙂

    http://www.paleseptember.com

  17. Thuany Santos

    março 2, 2015 at 9:37 pm

    Oi Taís! Gostei muito do seu texto. O estilo que você escreve (e que, eu e meu namorado também escrevemos no nosso blog) é muito a maneira como gostamos de contar sobre uma viagem. É falar sobre como nós enxergamos aquele lugar, como nós vivemos aquele momento. Às vezes eu me perguntava se era assim mesmo que eu deveria fazer, porque muita gente tem preguiça de ler e gosta de informações mais diretas. Mas pra isso existem os guias de viagens né? Hoje eu sei que, embora a gente não tenha tantos leitores, nós guardamos um pouquinho do que vivemos com carinho e de modo que possamos sentir aquela sensação de visitar o lugar a cada vez que relemos nossos próprios posts. Isso é tão gostoso! Um abraço quentinho! <3

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