Irlanda, Pessoal

O primeiro mês na Irlanda

Eu sei que esse post está bem atrasado e eu deveria ter feito isso no meu primeiro ano de Irlanda, em 2013. Naquela época eu acabei não compartilhando tanto assim como foi toda essa mudança na minha vida e como foi pra mim estar morando em um país diferente. Eu ainda lembro como se fosse hoje o meu primeiro mês aqui e resolvi escrever sobre isso. Como dizem: antes tarde do que nunca!

O primeiro mês foi aquela mistura doida de sentimentos, aquela felicidade enorme de estar realizando um sonho, a ansiedade sobre as novas descobertas, o medo e a curiosidade sobre o desconhecido e um aprendizado atrás do outro com a nova rotina.

Nas minhas primeiras duas semanas em Dublin eu fiquei morando em uma residência estudantil. Era um apartamento bem confortável e espaçoso, com janelas grandes e uma varanda bem legal. Cheguei em agosto e por volta das 9 horas da noite ainda estava claro, pra mim isso já foi uma mega diferença, já que no Brasil mesmo no horário de verão não fica assim claro até tarde.

Nesse apartamento tinha apenas mais uma pessoa e durante essa primeira semana não iria chegar mais ninguém, éramos só nos e aquele apartamento todo só pra gente. E desde o primeiro momento, já ficamos super amigas. Ela era coreana, nascida em Seul, mas desde os 10 anos de idade morava no Brasil. Não foi difícil ficarmos inseparáveis, fazendo tudo juntas e passando horas conversando, contando coisas super pessoais da nossa vida uma pra outra. Mesmo com a diferença de idade (ela era bem mais velha que eu), tudo fluiu tão bem e agradecemos por a vida ter feito nossos caminhos se cruzarem, aqui do outro lado do oceano, já que ambas morando em São Paulo, esse encontro nunca aconteceu.

Ela foi como uma mentora pra mim nessa fase inicial, me ajudou em muita coisa, desde coisas simples até coisas mais complexas e isso faz uma diferença enorme, ter alguém que a gente se identifica e gosta pra nos ajudar logo no começo.

Pequenas coisas do dia dia eram diferentes e eu tinha que me acostumar, mesmo que sejam coisas que eu já tinha em mente que seriam diferentes aqui, eu tinha que desligar o modo automático da cabeça antes de fazer algo, lembrar que eu não estava mais na minha rotina e ambiente de sempre.

As primeiras pequenas diferenças foram:

  • tomar banho – naquele apartamento e em muitas outras moradias da Irlanda ainda se usa o boiler pra aquecer a água da casa, isso me fez amar mais ainda os chuveiros elétricos, já que eu sempre esquecia que eu tinha que aquecer a água antes de tomar banho. Tinha um aparelho na parede que a gente controlava isso e eu tinha que ligar ele um certo tempo antes, pra ter água quente o suficiente pro banho todo. Era uma frustração enorme quando eu já estava dentro do banheiro, indo abrir o chuveiro e levava aquele banho de água fria. Aí eu tinha que sair, ligar a porcariazinha lá pra aquecer a água e esperar pelo menos de 40 minutos a 1h pra conseguir tomar meu banho quentinho.E isso se repetiu várias vezes  até eu acostumar com esse sistema. Vocês não imaginam a minha felicidade quando vi que na casa nova que eu iria mudar o chuveiro era elétrico.
  • Jogar o papel higiênico no vaso – quando eu fiz uma viagem de cruzeiro no Brasil, a empresa era italiana e o sistema dentro do navio era assim, mas isso foi só por poucos dias.. E aí, de novo, na Irlanda, era o mesmo esquema e no começo isso pra mim levou um tempo pra me acostumar, sempre ficava a procura da lixeira e aí tinha que parar e lembrar que não era ali que eu tinha que colocar, era no vaso mesmo. Depois que eu me acostumei, fiquei pensando que é mil vezes melhor assim e como que a gente no Brasil consegue manter o papel higiênico na lixeirinha.
  • As tomadas – não foi nem porque os plugs eram diferentes, isso nada que um adaptador não resolva, mas lembro o quão frustrada eu ficava porque as tomadas do apartamento não ‘funcionavam’. Quando eu precisava carregar o celular ou o laptop, era aquela saga tentando usar uma tomada, trocando, procurando qual estava ‘funcionando’, até eu me tocar que tinha um ‘interruptor’ pra ligar e desligar a tomada, se o negócio tava off, é claro que aquela tomada ali não iria funcionar.Isso é comum aqui na Irlanda e em alguns outros países da Europa, o que além de economizar energia também é mais seguro. Mas é claro que eu sempre esquecia desse detalhe e ficava naquela tortura achando que a tomada não funcionava ou que um dos meus aparelhos tinha pifado, ó os mico!
  • A mão inglesa – aqui na Irlanda se dirige como no Reino Unido, o volante fica do lado esquerdo. Nas ruas é sinalizado pra você olhar pra esquerda ou direita ao atravessar, mas claro que seu cérebro vai no automático nessas horas. Eu sempre levava um susto nos primeiros segundos ao ver o lado direito do carro vazio e o carro andando ‘sozinho’ (já que o motorista fica do outro lado, né). Era mais engraçado ainda quando tinha alguém dormindo…. ou que era uma criança, um cachorro, eu pensava ‘mddc qqtá conteçenuuuu, a criança tá dirigindo o carro’. Ficava rindo sozinha da minha cara ao andar pelas ruas.

Nesse primeiro mês tive sorte já de achar a minha ‘gang’ por aqui. Fazer amigos quando você tá em outro país acaba virando uma coisa mais intensa, tá todo mundo no mesmo barco e esses amigos acabam virando sua família.

Como a coreana já tinha começado as aulas dela, eu acabava saindo com ela e o pessoal da escola dela, foi assim que eu conheci uma outra coreana que virou super  minha amiga e que acabamos indo morar juntas depois, já que a coreana brasileira estava indo morar em um outro lugar. Fora também os italianos, alemã, espanhola, japonesa, mexicanas e outros brasileiros super queridos. Faziamos tudo juntos, pequenas viagens, noitadas, cozinhar na casa um do outro. Foi tudo muito divertido, mas aos poucos cada um foi voltando pro seu país e um ano depois me vi aqui sozinha, morrendo de saudade de cada um que tinha ido embora.

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Essa fase inicial também é a mais chatinha, o visto pra permanecer na Irlanda é tirado aqui, então eu tive que correr atrás das coisas e fazer todos os processos necessários pra conseguir o meu visto. Abrir conta em banco, tirar o cartão do PPS… e é tudo meio estressante, bate um medo de que algo no caminho possa dar errado.

Eu só podia ficar na acomodação estudantil por duas semanas ecom isso também vem outro estresse: a busca por uma moradia permanente. Foram alguns dias andando por Dublin e ficando bem frustradas(eu e a coreana) quando não conseguiamos uma vaga. Fiz um post na época sobre a nova casa e o alívio de ter finalmente achado um cantinho.

Primeiro mês bem intenso e cheio de coisas novas pra absorver, dá uma saudade lembrar dessa época e como o tempo passa rápido, são quase três anos aqui e cada fase dessa jornada não importa boa ou ruim me fez evoluir bastante. Eu sempre morei a vida inteira com meus pais e atravessar um oceano pra começar uma vida nova e mais independente em um outro país, tendo que cuidar de mim mesma e ter que pensar em cuidar do meu canto, minha comida e pagar minhas próprias contas, foi com certeza um chacoalhão na vida! E só nesse primeiro mês na Irlanda eu com certeza cresci muito como pessoa.

Um post cheio de nostalgia pra mim, foi bom também pra desenterrar algumas fotos, sentir mais saudade ainda dos amigos e ver quanta coisa mudou desde que cheguei aqui.

Life begins at the end of your comfort zone!

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//19 Comments

  1. Gabi

    maio 10, 2016 at 12:17 am

    O papel no banheiro foi algo que demorei a acostumar, mas que depois que acostumei, me fez achar o sistema brasileiro bem porco, rs. É uma fase muito gostosa, né? Chegar, descobrir um lugar novo.
    Estou com frio na barriga pra fazer isso de novo, e de forma mais definitiva.
    E hoje, que você está mais adaptada, é moradora do país (e não mais uma “intercambista”), você olha pra trás e pensa que faria algo diferente?
    Beijos

    1. Taís

      maio 10, 2016 at 12:59 am

      Eu também, Gabi! É muito mais higiênico mesmo jogar no vaso, quando me acostumei fiquei chocada em como conseguimos manter na lixeirinhano Brasil haha
      Ahh com certeza, é uma fase muito gostosa, é tudo novo, tanta coisa pra descobrir e aprender, é uma fase que a gente guarda com muito carinho. E eu já tô ansiosa por você e quero acompanhar comovai ser tb suas novas descobertas pela Suiça.
      Eu acho que aproveitaria mais a cia dos amigos e não teria me deixado levar por certas ‘bads’ que bateram no processo e claro, ter ido procurar um trabalho na Irlanda mais cedo, já que fiquei os 6 primeiros meses ainda trabalhando com uma empresa do Brasil fazendo traduções… viver em euro e ganhar em reais é dureza viu hahah
      beijo <3

  2. Laura Nolasco

    maio 10, 2016 at 3:43 am

    Adorei de verdade ler esse seu post, ri sozinha aqui imaginando a situação da criança/cachorro no carro… E isso do chuveiro e das tomadas, nossa… eu ia bugar também!
    Imagino o quanto deve ser emocionante o primeiro mês num novo país… E os seguintes, claro, mas no primeiro acho que tudo deve ser mais “à flor da pele” hahahah
    Beijos!

    1. Taís

      maio 12, 2016 at 9:41 pm

      Sim, no primeiro mês é tudo novidade.. e ficamos bugados um pouco com essas diferenças! haha Beijo :*

  3. The Reader's Tales

    maio 10, 2016 at 12:01 pm

    Hello Tais! Que aventura e devo dizer que tu tiveste muita sorte em conhecer pessoas tao boas. E verdade que a amizade nao conhece fronteiras nem idade. Uma grande amiga minha – brazileira de Fortaleza – conheci-a num aeroporto, os nossos voos estava atrassado (eu regressava das ferias de Pascoa ha 5 anos atraz) e ela comecou a falar comigo e durante uma hora parecia que eramos amigas de longa data. Desde ai sempre fomos muito proximas. Ate ja passamos ferias juntas. Apesar dela ser muito mais velha do que eu – e super divertida e carinhosa, nunca ninguem me faz rir como ela….
    Eu imagino a falta que um ano depois as tuas amigas te deixaram, elas parecem mesmo gente boa. Obrigada por partilhar este lindo posto.

    Engracao, eu nao sabia que na Ireland tem que se aquecer a agua para o banho 😉 Aprendemos todos os dias. Boa semana

    1. Taís

      maio 12, 2016 at 9:49 pm

      Que legal sua historia com a amiga de Fortaleza, realmente amizade não conhece fronteiras e nem idade! 🙂

  4. Cíntia de Melo

    maio 10, 2016 at 6:27 pm

    Ai Ta, hoje vem um cliente meu aqui na agência fazer um pré embarque pra Irlanda, acho que vou abrir seu blog e ler tudo aqui com ele.
    Os primeiros dias são muito inesquecíveis, sempre sinto saudades <3

    1. Taís

      maio 12, 2016 at 9:51 pm

      Sério? Ai que amor, Cíntia! Espero que teu cliente tenha uma ótima viagem pra cá e que seja uma experiência incrível pra ele 🙂

  5. Katarina Holanda

    maio 11, 2016 at 12:33 am

    Deu pra sentir sua nostalgia daqui <3 Muito gostoso lembrar dos primeiros momentos de uma mudança assim, né? Beeijo!

    1. Taís

      maio 12, 2016 at 10:09 pm

      Siimm, é muito gostoso mesmo! *.*

  6. Luiza

    maio 11, 2016 at 11:45 am

    Você lembrou e descreveu os primeiros tempos de uma mudança de uma forma tão gostosa que me deu até vontade de mudar de novo? Hahaha. Pode ter demorado 3 anos pra vir o post, mas que bom que veio. ♥

    1. Taís

      maio 12, 2016 at 10:21 pm

      Awnnn <3 E realmente, dá vontade de fazer tudo de novo! ^^

  7. Lorraine Faria

    maio 11, 2016 at 5:37 pm

    Que delícia acompanhar seu relato! Essas pequenas coisas diferentes do nosso usual fazem mesmo uma diferença danada né? Mas deve ser mesmo uma experiência deliciosa <3

    beeeijo

    1. Taís

      maio 12, 2016 at 10:28 pm

      ô se fazem, é uma experiência unica!

  8. Camila Faria

    maio 11, 2016 at 9:51 pm

    Sem dúvida conhecer um grupo de pessoas bacana nessa primeira fase deve fazer toda a diferença do mundo. Você ainda tem contato com essa galera?

    E nossa, NUNCA joguei o papel higiênico nessas lixeirinhas, acho isso bem nojento na real. QUEM inventou isso gente? Essa pessoa deveria ser punida de alguma forma. Hahaha!

    Beijo, beijo :*

    1. Taís

      maio 12, 2016 at 10:29 pm

      Hahaha super deveria ser punido! 😀
      E eu tenho mais contato com as coreanas mesmo, com o resto do pessoal eu meio que pedi um pouco, só falo mais em épocas de aniversários

  9. Thayse

    maio 14, 2016 at 11:42 pm

    Ta, minha experiência aqui foi completamente diferente no quesito banho, porque eu só peguei casas com chuveiro elétrico, me sinto abençoada por isso – morria de medo do boiler e das histórias que eu ouvia sobre ele, acredita que foi uma das principais razões de eu ter cortado o cabelo curtinho? achei que seria mais fácil pra tomar banhos rapidinhos e coisa e tal. E na Argentina também jogam papel no vaso, eu já tinha passado por essa situação desconfortável no meu primeiro intercâmbio hehe
    Achei bem bacana ler o seu relato, mesmo anos depois, é muito emocionante ver essas descobertas!


    Beijos
    Brilho de Aluguel

  10. Thay

    maio 15, 2016 at 11:49 pm

    Adoro ler esse tipo de relato, principalmente quando sei que é um sonho se realizando, sabe? Dá um quentinho no coração, tão bom! <3
    E apesar dos perrengues, o aprendizado que fica é muito recompensador. Deve dar um frio na barriga congelante se dar conta de que tem que se virar sozinha, longe dos pais, mas o crescimento pessoal nem se compara com quem morou sempre com a família (tipo eu, no caso). =**

  11. Débora Resende

    setembro 24, 2016 at 12:01 am

    O primeiro mês é sempre muito louco, né? rs Mas também é uma delícia! Que bom que você conseguiu fazer amizades logo no início, faz toda a diferença!

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