Fazendo trilha sozinha pela primeira vez

Apesar de já ter feito muita trilha por aí acompanhada, eu sempre tive meio que receio de fazer algo mais longo por conta própria. Medo de algum acidente, me machucar, me perder… Eu sei que muitas mulheres fazem trilhas sozinhas, mas essas questões me faziam sentir que eu não estava preparada.

Eu precisava de um respiro. Setembro do ano passado eu estava em uma situação complicada e eu precisava me reconectar. Ir para o lugar que eu me sinto bem, feliz, acolhida, inspirada, ir para o meu lugar favorito…As montanhas! Tomei uma dose de coragem e fui. Meu corpo e minha mente precisavam muito desse momento, eu precisava fazer isso por mim.

Nessa época as restrições estavam mais relaxadas por aqui. Era final de verão, estava um clima quente, mas não insuportável e assim fui conhecer as maravilhosas montanhas de Tatra aqui no sul da Polônia. Essa é uma cadeia de montanhas que faz parte dos Cárpatos e forma uma cordilheira na fronteira entre a Polônia e a Eslováquia. Essa era uma região que eu queria muito conhecer e passei 8 dias subindo aquelas montanhas praticamente todos os dias.

Achei uma casinha típica da região no airbnb que foi contruída em 1910 (!!!), ela pertence a uma família de esquiadores profissionais e a casa já passou por várias gerações. A dona atual acabou se mudando para capital e deixou uma parte dessa casa pra receber pessoas (alguns membros da família ainda vivem ali). E que ideia maravilhosa que ela teve e que oportunidade legal de ficar nesse típo de lugar.

Casa que eu fiquei, ela é enorme e em suas várias sessões são tipo apartamentos separados. Tudo tão lindo!

Minha base para fazer as trilhas sozinha por essas montanhas foi a cidade de Zakopane, que é considera a capital das Tatras. De lá é muito fácil chegar em várias trilhas, seja andando ou com o transporte local. O que pra mim foi uma super vantagem já que eu não fui de carro. Essas montanhas ficam dentro do Parque Nacional das Tatras (em polonês: Tatrzański Park Narodowy) e Zakopane fica ali nessa entrada pro parque.

A localização da casa também era ótima, pois me permitia estar ali perto do centro de Zakopane pra poder pegar o transporte público, mas ao mesmo tempo também um pouco afastada da rua principal, já rodeada de muita natureza – em uns 15 minutos de caminhada eu estava em uma das entradas do parque.

E essa era a vista de muitas das minhas refeições antes ou depois das trilhas. Cada vez que passo tempo em lugares assim, mais quero fugir das cidades grandes.

No total eu fiz 6 trilhas nessa minha estadia. Logo no primeiro dia, mesmo que já na parte da tarde, eu quis ir subir aquelas montanhas e ir me ”esquentando” para as próximas. Essa eu consegui ir andando da casa mesmo e ao todo acho que andei por umas 3 horas. Eu não tinha me informado direito, mas você tem que pagar pra entrar no parque. Você pode comprar um passe pra vários dias ou entradas únicas. Dá pra comprar pela internet ou lá na hora mesmo. Como eu não fui previnida, eu só estava com o cartão e naquela entrada eles aceitavam só dinheiro. A moça que trabalhava ali estava tentando me explicar pra comprar online. Foi engraçado toda a situação, ela só sabia umas palavras em inglês, até que chegou um casal e ela pediu ajuda pra eles traduzirem para mim o que ela estava falando. No final das contas esse casal se ofereceu pra pagar minha entrada, disse que eu não precisava devolver e me desejaram boa trilha.

Comecei com o coração super quentinho com esse gesto tão legal. Cheguei tão esbaforida naquele pico (não era muito alto), mas tão feliz de poder estar ali. De fazer isso por mim e de superar esse desafio de fazer uma trilha sozinha. Lembrando que é sempre importante deixar claro, que em todos os dias alguém sabia onde eu estava e quais trilhas eu estava fazendo. É importante fazer isso com segurança e avisar as pessoas. Caso você não dê sinal de vida, você tem essa segurança que alguém pelo menos tem uma ideia de qual é sua localização nesse território todo.

Eu me senti muito segura em fazer trilha sozinha nas Tatras. Obviamente só fui em trilhas demarcadas. As Tatras são o lar de vários animais selvagens, como o urso marrom e é importante seguir as regras do parque. Respeitar as sinalizações e a vida desses animais que moram ali. Não deixar lixo por exemplo, não existem lixeiras por lá, você tem que trazer o seu lixo pra fora do parque nacional. Eu fiquei muito animada em talvez ter a oportunidade de ver algum animal, já que alguns se aproximam das trilhas durante o dia. Em um dos dias tinha um bem próximo, acho que era um cervo, mas não dava pra ver muito bem. Também dá pra ver os chamois das Tatras, um tipo de cabra das montanhas dessa região, são animais lindos e algumas pessoas podem ter a sorte de ver enquanto fazem trilhas por lá.

Acho que o meu maior medo mesmo era a resistência física. De ficar muito cansada e acabar não prestando atenção no caminho. Durante essas trilhas eu acabei quebrando meu recorde pessoal e fiz a trilha mais longa da minha vida até agora ( 10 horas, mas espero fazer mais longas hehe). Fiquei muito feliz de ver que eu sou capaz e que eu consegui ir além do que eu achava que conseguiria. Tive oportunidade de aproveitar a natureza no meu tempo, de ter esse momento comigo mesma também.

Andei por 10, 5, 3 horas.. cada dia era uma trilha diferente. Entre as mais longas eu fazia também um dia de descanso ou acontecia de eu ir andar só por 1 horinha e acabava virando 3 ou 4. As Tatras são tão lindas que fica difícil querer ir embora.

Eu pensei em arriscar e ir para alguns picos, como por exemplo o Rysy. Esse é o pico mais alto da Polônia e fica exatamente na fronteira com a Eslováquia. Queria muito fazer, mas pensei bem e acabei desistindo da ideia. Uma coisa que eu não podia esquecer era os meus limites. Eu não poderia me arriscar e fazer trilhas com um nível mais puxado, mais longa e com mais obstáculos. Eu, sozinha, sem capacete…. não seria uma boa ideia. Existe um sistema de resgate de helicóptero e infelizmente você escuta ou vê ele passando com uma certa frequência. Tem muitos acidentes por lá e conversando com uma local ela me falou algo que eu pensava. As Tatras no lado polonês têm trilhas muito turísticas e alguns picos são relativamente fáceis de chegar. Então muita gente vai, sem preparo, sem pesquisar melhor antes e alguns acidentes fatais podem acontecer.

Comigo aconteceu um pequeno acidente. Eu sempre tomo muito cuidado com os meus passos quando estou em um lugar mais de risco. Lá nas High Tatras com pedras e um terreno meio complicado, eu andava devagar, dava passos firmes, com um certo medo de cair. Eu focava bastante no meu caminho, tomando cuidando. Até que um dia fui fazer uma trilha mais tranquila, em um vale e acabei caindo. Pois é, haha!

Nesse vale (Dolina Kościeliska) tem várias trilhas que você pode fazer no seu ”entorno” e ai descer ou voltar pro vale novamente. Minha primeira trilha ali foi pra subir um pequeno morro. Fui, subi, tomei meu café da manhã olhando a vista e na hora de descer eu toda serelepe acabei pisando numas pedras soltas e fui direto pro chão. Ralei minha mão, minha perna, mas o pior mesmo foi que eu cai diretamente de bunda numa pedra maior. Bati com força o meu cóccix nessa pedra. Se você já caiu no seu cóccix assim você provavelmente deve imaginar a dor que eu senti. Foi difícil levantar, pensei até que tinha quebrado meu traseiro. hahaha

Fui descendo lentamente para o vale, respirei fundo e a dor foi ficando melhor. Aí eu tive a brilhante ideia de continuar com meus planos que era fazer outra trilha por ali, que incluía escalar a lateral de uma caverna.

Foi lindo, foi legal, mas a dor que eu senti depois…..

Realmente não foi uma boa ideia. Voltei para o vale novamente quase chorando de dor, me deitei toda torta perto de um rio e ali fiquei uns minutos sem conseguir me levantar (chama o samu kkkkk). Não sei nem como consegui chegar em casa aquele dia e agradeci muito que tinha uma banheira me esperando. Fui na farmácia pegar uma pomada e descansei pelo resto da noite. No dia seguinte eu ainda queria fazer mais trilha hahaha.. mas tudo dependia do meu estado, né. Acordei melhor, achei que eu iria aguentar mais umas horas de caminhada. E assim fui fazer minha última trilha pela Dolina Pięciu Stawów que é não é lá muito difícil, mas pra mim acabou sendo uma tortura. Obviamente depois de um tempo caminhando meu cóccix voltou a doer bastante, fazendo eu diminuir muito meu passo e o tempo de trilha dobrou.

O resultado foi que meu cóccix demorou uns 2 meses para parar de doer completamente. Que ossinho infeliz de machucar é esse, né? Pelo menos aprendi a lição de não inventar mais trilha se eu cair desse jeito de novo e realmente só descansar.

Dolina Pięciu Stawów tão linda, me aguarde que voltarei para uma trilha sem dores! haha

Outra coisa que foi novidade pra mim foi fazer trilha entre fronteiras. Uma das trilhas que fiz ficava metade na Polônia e a outra metade na Eslováquia. Formava um zigzag e meu celular doidinho recebendo mensagem das operadoras locais de um lado e depois do outro. Muito doido isso de o seu próximo passo é em outro país e como eles demarcam essas coisas.

Eu amei muito essa experiência de me aventurar nas montanhas sozinha. Eu achei que talvez eu sentiria falta de uma companhia ou ficasse com muito medo de alguns caminhos, mas até que não. Uma manhã eu estava completamente sozinha, só ouvindo o barulho da natureza. Por alguns momentos fiquei com medo, mas parei pra pensar e meu medo real mesmo é de outras pessoas e não dos animais. Também aprendi mais sobre trilhas, sobre algumas coisas que queria investir e ter na mochila pra ter uma caminhada mais confortável e segura. Sobre minha resistência física e também a minha coragem. Eu me senti muito bem comigo mesma depois de um desafio desses.

E já conto os dias pra voltar pras montanhas novamente.

Você já fez alguma trilha sozinha(o). Como foi?

Comments

  1. Taís docéu menina, tá machucada e ainda continua a trilha? E no dia seguinte faz mais trilha?! Eu tô sentindo dor só de ler sua postagem haha

    Espero que você esteja 100% melhor.

    Mas tirando o acidente, que lugar mais lindo! Aquela foto da casa onde você se hospedou ficou surreal! Que perfeição ♥

    Eu nem sei se posso dizer que já fiz trilha. Porque eu só andei por uns 15 minutos haha Mas sempre foi acompanhada.

    Aguardo mais fotos das suas próximas aventuras hehe

  2. Nossa que delícia foi ler seu relato, eu li duas vezes porque me sinto nas montanhas contigo! Eu nunca fiz trilhas sozinha, mas morro de saudades dessa aventura: trilha, acampar e talz. Amo demais! E essa casa cheia de história? Eu amei!

    Que sonho conhecer as montanhas da Europa ♥

  3. Taís, nunca fiz trilha sozinha mas fiquei do lado de cá, imaginando a sua trajetória nessas paisagens incríveis! Ahh, foi uma delícia ler esse post e eu fiquei feliz por sua felicidade. A solitude é uma coisa muito boa que todos nós precisamos (e devíamos) nos presentear de vez em quando. Apesar dos perrengues (dolorosos rs’), acredito que você nunca vai esquecer essa experiência ♡

  4. Que tuuuuuuuu-dooooooo! O tempo todo lendo esse post estava mentalmente batendo palmas e gritando forte hahahah Taís, que delícia esse texto sobre sua primeira trilha sozinha. Pelo título, achei que seria uma trilha tranquila, dessas que você ainda volta pra sua casa no fim do dia. Mas não, foi uma p*ta viagem legal, vários dias e muitas horas de caminhada. *insira aqui o gif ~tá passadan?~*

    As fotos que você resgitrou, gente, as fotos! Que bom que você aproveitou, que bom que você teve essa experiêcia maravilhosa! Obrigada por compartilhar aqui com a gente. Quem sabe um dia eu me animo pra fazer alguma coisa parecida?

    Super beijo e bom resto de semana.

    • Ahh que felicidade saber que vc gostou.. obrigada pelo comentário super querido. Espero que um dia vc tb tenha uma experiência assim (mas sem tombos por favor hahaha)

      beijos!

  5. Que coisa mais linda seu blog, seus relatos, suas fotos e suas experiências! Eu acho que por mais que, fazer muitas trilhas às vezes nos cansem, vale a pena né? Preciso dizer que estou completamente apaixonada pelo teu conteúdo e relatos. Foi de aquecer o coração voltar ao mundo dos blogs essa semana e te encontrar. ♥

    • Olá Leticia, seja muito bem vinda por aqui, fico feliz que tenha me achado e gostado do meu post. Volte sempre que quiser <3

  6. Taís, que experiência, que aventura! Entendo perfeitamente seu sentimento de superação pq pra nós, mulheres, fazer coisas sozinhas é um grande feito neh? E quando a gente consegue fazer algo grande assim, é realmente inesquecível. Obrigada por compartilhar com a gente toda a experiência, as dicas, as fotos dessas paisagens incríveis. Admiro demais pq taí uma coisa que super não tenho coragem de fazer e entendo todos os seus receios. Mas apesar de todos eles, vc se preparou, foi, viveu intensamente e com certeza aprendeu MUITO. Certeza que valeu muito a pena apesar dos perrengues no meio do caminho. Um grande beijo!

  7. Taís, que sonho essas trilhas. Esse lugar de maneira geral, na verdade. Encantada!
    Nunca fiz trilha sozinha, mas acho que o meu maior medo seria de outras pessoas e não de animais ou acidentes (mesmo super ciente que poderia me deparar com os dois também). Fiquei tocada com o gesto do casal na entrada do parque ~ uma coisa tão pequena, mas que transforma o dia e o humor de uma pessoa, né? Foi um pequeno lembrete de como podemos ser mais solidários e humanos, mesmo nas pequenas coisas. <3

    • Sim, Cá.. fiquei pensando nisso também, como pequenos gestos se tornam algo tão grande no final das contas <3

  8. Oi Taís, tudo bem?
    Nossa que lugar maravilhoso!! Eu confesso que não sou a garota das trilhas, nas verdade morro de medo, não de animais em si (com exceção de cobras), Mas tenho medo de pessoas mesmo. Mas nesse lugar eu me arriscaria e faria sim.é de tirar o fôlego.
    Espero que esteja tudo bem contigo Taís. Esse ossinho é cruel. Minha tia já teve luxação no coccix e o tratamento foi sofrido.
    Forte abraço.
    AVA

    • Oi Ava.. eu estou bem sim, depois dos 2 meses fiquei sem dores alguma. E realmente, o medo das pessoas é maior que animais!

  9. Parabéns menina pela coragem e determinação.
    Trilhas são ótimas para refletir junto a natureza.
    Que fotos maravilhosas… da uma paz só de olhar, imagina estar ali.

  10. Ai, suas fotos são sempre tão incríveis!
    Que lugar lindo! Eu ia querer morar nessa varandinha da casa, de tão linda a vista hahahah
    Nunca fiz trilha, imagine sozinha… mas deve ter sido uma experiência muito legal! Eu curto mto fazer coisas sozinha pra ir no meu próprio ritmo.
    Adorei o post!
    Beijos

  11. Antes de mais nada, que fotos espetaculares, que lugar lindo, apaixonei. Amo acompanhar seu blog por causa disso. A gente realmente não tem ideia de quantos lugares maravilhosos existem por aí.

    Menina que aventura a sua, haha. Fiquei admirada porque não é do meu costume sair por aí fazendo trilhas, mas é uma coisa que admiro muito, acho tão incrível esse contato maior com a natureza. Obrigada por mostrar e contar toda a sua experiência!

    Espero que você tenha se recuperado totalmente no tombo, haha, deve ter doído. Mas tirando essa parte, imagino que tenha valido muito a pena.

    Beijos,
    Livro de Memórias

    • Muito obrigada, Renata! Fico feliz que tenha gostado e que vc tenha conhecido esse lugar lindo pelas minhas fotos.

      e eu me recuperei sim do tombo, foi doido na epoca mas ainda bem que passou haha

      beijos!

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